Quem averigua as notícias, os algoritmos ou jornalistas? A lógica crítica de C. S. Peirce como processo de identificação de uma Fake News.

Adelino de Castro Oliveira Simões Gala, Vania Baldi

Resumen


Nos tempos atuais as notícias são produzidas, consumidas e veiculadas numa escala de processamento, memorização e partilha sociotécnica que ultrapassa qualquer momento anterior vivido pela humanidade. Deve-se à intermediação dos sistemas computacionais, regidos por específicos algoritmos, que se apresentam como generosos propulsores de desintermediação cultural e que atuam pelas plataformas e serviços digitais como Facebook, Twitter, Instagram, Whatsapp etc. Nesse ambiente os agentes produtores de notícias e opiniões (e confusão entre as duas coisas) se multiplicam, determinando processos de desinformação e desordem cognitivo.

O espaço digital se configura progressivamente como um território de conquista, com conteúdos noticiosos sempre mais incertos e escorregadios, onde as emoções e visões sobre a realidade se misturam e se aproximam das ficções. As Fake News, assim, se tornam como “armas” para uma guerra entre narrativas sobre factos teoricamente reconhecíveis como tais por parte de todos, mas ressignificados como representantes de “realidades alternativas”. Assim, o desejo de acreditar apenas em uma versão da realidade, assim como num conteúdo não verificado, precisaria ser travado por um olhar crítico sobre a facciosidade e os males que estes poderiam causar.

Esta dissonância entre narrativas afeta também as polarizações entre notícias de cariz científico e conspirativo, onde manifesta-se uma viralização de conteúdos anticientíficos. Também os conhecimentos estabelecidos e as competências consolidadas, portanto, ficam reféns de uma lógica opositiva assente na descrença apriorística contra o que tradicionalmente era considerado ser oficial e objetivo. Os âmbitos das notícias, das informações e das ciências ficam assim desafiados a experimentar novas formas de apresentar, analisar, assinalar e divulgar o que parece ameaçar a sua credibilidade.

A lógica do pensamento crítico, como destacado também pelo trabalho epistemológico de Peirce, é a pedra fundamental no combate e na prevenção da distorção dos factos e dos conhecimentos estabelecidos. Agora trata-se de ter em conta como tal senso crítico deve cada vez mais instalar-se também no âmago dos softwares que gerem e produzem informações em rede.


Palabras clave


Pós-verdade; Fake News; Algoritmos; C. S. Peirce; Lógica Crítica

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DOI: https://doi.org/10.12795/Ambitos.2019.i46.13

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