Astrágalo A39

Introdução ao número

Editoras responsável pela edição.

Victoria Farrow School of Arts, Design and Architecture De Montfort University, Leicester, UK victoria.farrow@dmu.ac.uk https://orcid.org/0009-0000-8085-9453

Alona Martínez Pérez. School of Arts, Design and Architecture De Montfort University, Leicester, UK   alona.martinezperez@dmu.ac.uk https://orcid.org/0000-0002-5438-5992

https://dx.doi.org/10.12795/astragalo.2025.i39.01

 

Da controvérsia ao catalisador: transformando o aprendizado de arquitetura

Hoje nos deparamos com algumas das mudanças e encruzilhadas mais importantes na educação arquitetônica dos últimos cinquenta anos. A educação em arquitetura está passando por uma reforma significativa, particularmente no Reino Unido, onde o Architects Registration Board (ARB) e o Royal Institute of British Architects (RIBA) estão abandonando o sistema tradicional de três etapas para adotar um modelo mais flexível e baseado em resultados. As mudanças principais incluem focar em competências demonstradas em vez de percursos preestabelecidos, introduzir rotas flexíveis para a qualificação, integrar a prática profissional desde as etapas iniciais do aprendizado e adotar novas tecnologias como a inteligência artificial. O objetivo é criar um conjunto de padrões mais claro, reduzir o tempo necessário para obter o título e permitir que arquitetos comprovem habilidades e conhecimentos pertinentes por meio de diversas certificações. Entretanto, a falta de consideração dos desafios que a educação superior enfrenta atualmente, tanto financeiros quanto estruturais, e a rapidez com que as mudanças estão sendo implementadas criaram uma tempestade perfeita com a qual o corpo docente precisa lidar.

A pesquisa em educação arquitetônica tem sido comprometida, não apenas pelas disparidades de financiamento —a pesquisa em algumas áreas das humanidades e em arte e design historicamente recebeu menos recursos em comparação com a ciência da construção—, mas também pelos desafios decorrentes do caráter prático e orientado ao design da educação em arquitetura, que muitas vezes é difícil de encaixar nos modelos tradicionais de pesquisa acadêmica. Pesquisadores e pesquisadoras nesta área deparam-se com obstáculos metodológicos e institucionais específicos ao abordar problemas complexos. Existe uma desconexão entre ensino e pesquisa na educação arquitetônica, já que muitas escolas de arquitetura contratam pessoal não ativo em pesquisa. A maioria de quem ensina arquitetura são arquitetos em exercício e, embora isso seja certamente valioso, pode criar uma barreira entre a pesquisa e o ensino e, consequentemente, a pesquisa em educação arquitetônica pode acabar divorciada, de fato, da prática profissional. Devido ao caráter multidisciplinar da disciplina, essa ferramenta crítica que poderia ajudar a desfazer as fronteiras entre a educação e a prática profissional tem sofrido uma diminuição de impacto.

Do outro lado da cerca, no campo profissional, os arquitetos enfrentam desafios como a incerteza econômica que afeta os portfólios de projetos, a necessidade de integrar novas tecnologias complexas como inteligência artificial e realidade virtual, a pressão por criar moradias acessíveis e questões relacionadas à compressão de honorários e à rentabilidade. A retenção de talentos, a captação de pessoal, os obstáculos regulatórios, a crescente concorrência global, a demanda dos clientes por sustentabilidade e a natureza de alta pressão e grande consumo de tempo da profissão estão levando os profissionais ao limite. Ao reconhecer os graves desafios enfrentados por cada um dos três campos —educação, pesquisa e prática profissional— não surpreende que existam lacunas entre eles. Apesar disso, em uma tentativa de continuar avançando, esta edição intitulada "Desfocar as linhas" busca iniciar uma conversa sobre o que pode ser feito para começar a curar essas distâncias por meio de exemplos selecionados.

"Pronto para a prática", "preparado para o estúdio" e "pronto para o mundo real" são frases recorrentes na educação arquitetônica de hoje, especialmente no momento crítico em que as e os estudantes passam da educação superior para a prática profissional. Esses termos costumam carregar a presunção pouco realista de que os formandos deveriam sair das escolas de arquitetura como profissionais "já preparados", capazes de se integrar sem esforço aos escritórios. Embora a empregabilidade e a capacidade de contribuir com confiança na prática sejam objetivos indiscutivelmente centrais da educação arquitetônica, eles não podem ser seus únicos fins. Em resposta a esse conflito persistente, esta edição apresenta uma série de artigos diversos de três continentes e seis países para considerar o que mais poderia estar ocorrendo na formação das e dos futuros arquitetos e, com essa ação, chamar a atenção para sugestões de soluções potenciais positivas que outras pessoas possam promover. Com isso, esta edição aspira beneficiar o campo mais amplo da educação arquitetônica e da prática profissional ao iniciar uma conversa, reconhecendo ao mesmo tempo que os artigos incluídos documentam trabalhos em andamento em um contexto atual que é incerto e enfrenta múltiplas dificuldades.

As questões sobre a prontidão não se circunscrevem ao ponto de saída da educação, mas emergem em cada transição: do ensino médio à universidade, entre etapas da formação arquitetônica e, finalmente, para a prática profissional. Docentes adaptam continuamente métodos pedagógicos e estruturas curriculares para abordar essas transições, equilibrando as necessidades imediatas das e dos estudantes ingressantes com uma preparação de longo prazo para uma profissão em evolução. No entanto, a pergunta recíproca é feita com menos frequência: em que medida os escritórios estão "preparados" para as e os graduados que recebem? Como o setor reflete sobre mentoria, cultura do local de trabalho e desenvolvimento profissional em resposta às mudanças nas condições sociais e às transformações que continuam ocorrendo na educação arquitetônica?

O panorama em mudança tanto da educação quanto da prática arquitetônica exige respostas urgentes. As e os estudantes de hoje chegam com literacias digitais avançadas, maior consciência da crise climática e uma forte demanda por equidade, diversidade e inclusão, enquanto navegam simultaneamente pela precariedade financeira. Os currículos em arquitetura devem, portanto, adaptar-se, incorporando tecnologias emergentes como inteligência artificial e BIM juntamente com questões críticas de sustentabilidade, inovação de materiais e justiça social. Ao mesmo tempo, a prática profissional está sob escrutínio devido a problemas de baixos salários, discriminação e culturas de trabalho que minam o bem-estar. O impacto da pandemia e da emergência climática acelerou ainda mais a necessidade de que ambos os lados dessa intersecção reconsiderem suas responsabilidades.

Esta edição impulsiona uma pergunta central: como deveria ser a educação arquitetônica para as e os futuros arquitetos e como deveria ser reconfigurada a transição entre a educação superior e a prática profissional? É uma pergunta frequentemente discutida, mas raramente respondida com soluções confiáveis que explorem toda a gama e os potenciais pedagógicos. Por isso, reunir artigos de uma diversidade de autores —incluindo escritores, docentes, arquitetos, pesquisadoras e pesquisadores e estudantes que compartilharam inovações pedagógicas como exemplos para preparar os graduados, não apenas para a prática, mas para os desafios mais amplos de nossa profissão em transformação— torna-se um passo importante. Ao interrogar as falhas históricas, epistemológicas e políticas que estruturam o entrelaçamento da educação arquitetônica com a prática profissional, não se trata apenas da transmissão de competências técnicas, mas da reprodução —e possível reconfiguração— das lógicas disciplinares, institucionais e sociais pelas quais a arquitetura se legitima.

Um relato histórico-crítico que abrange quase dois séculos de determinações normativas no Reino Unido situa esse nexo dentro de regimes de governança, evocando a análise da governamentalidade de Foucault (1977, 1991) e a maneira como os aparatos estatais e os organismos profissionais inscrevem condições de possibilidade pedagógica e profissional. A edição prossegue com o deslocamento de preocupações tecnocráticas sobre metodologias ao reformular o ensino da arquitetura como um problema ético e epistemológico, privilegiando as questões ontológicas do "o quê" e "por quê" sobre o "como", o que ressoa com a crítica de Heidegger (1968) à razão instrumental e a insistência de Biesta (2010) nas dimensões éticas da educação.

Essas tensões são mediadas por meio do dispositivo do Oficina Convidada, uma formação pedagógica que hibridiza racionalidades acadêmicas e profissionais, evocando o relato de Bourdieu (1990) sobre o habitus específico do campo e a reprodução institucional. Intervenções posteriores abrem um contra-discurso crítico ao examinar a mobilização de quadros decoloniais e baseados no cuidado desenvolvidos em um contexto sul-africano para descentralizar paradigmas dominantes de "preparação profissional" e realizar uma ruptura epistêmica semelhante às "Epistemologias do Sul" de Santos (2014) e à ética do cuidado de Puig de la Bellacasa (2017). Essa desestabilização se estende ao avançar epistemologias performativas e encarnadas, elaborando pedagogias híbridas do cuidado que situam o afeto e a ação em ambientes urbanos, um movimento que ressoa com a noção de conhecimentos situados de Haraway (1988) e a insistência de Latour (2005) na constituição relacional de arranjos socioecológicos.

As contribuições finais recalibram a discussão para a esfera profissional, mantendo um olhar crítico. Destaca-se a necessidade de preparar as e os estudantes para a colaboração multidisciplinar, em consonância com o trabalho de Lave e Wenger (1991) sobre comunidades de prática e a pesquisa contemporânea sobre ecologias de design colaborativo. A edição se encerra articulando modelos socialmente engajados que buscam não apenas se adaptar, mas transformar a prática arquitetônica, remetendo à pedagogia do oprimido de Freire (1970) e ao chamado de Lefebvre (1991) pelo direito à cidade. Em conjunto, essas contribuições delineiam um terreno contestado no qual educação e prática não podem ser concebidas como domínios discretos, mas como formações co-constitutivas cujos modos de governança, epistemologias e apostas políticas devem ser interrogados criticamente. Ao apoiar-se e estender marcos que vão de Foucault a Freire, de Haraway a Santos, esta edição avança uma agenda para a pedagogia arquitetônica historicamente situada, filosoficamente rigorosa e orientada para futuros emancipadores.

Olhando adiante, é necessário observar que se trata de trabalhos em andamento, e não podemos concluir que essas soluções representem os limites das investigações sobre o espaço que existe entre a educação arquitetônica e a prática profissional, embora esses artigos de fato comecem a explorar e extrapolar novas direções que podem nos aproximar dessa posição.

A exploração contínua deve abranger o tema do acompanhamento longitudinal dos resultados das pessoas formadas, pois há poucas evidências do que acontece com elas quando ingressam nos escritórios. Persiste uma lacuna ao conectar intervenções educacionais com progresso profissional mensurável, satisfação ou capacidade de adaptação na prática, assim como a necessidade de examinar marcos explícitos para a integração no currículo de tecnologias digitais, inteligência artificial, design paramétrico e BIM, que ainda estão pouco explorados. Para aprofundar, devemos considerar como as e os estudantes desenvolvem literacias críticas ao lado da tomada de decisões criativas e éticas em contextos profissionais e abordar a necessidade de vincular a fluência tecnológica à preparação para a prática profissional.

A preparação profissional costuma ser enquadrada em termos de colaboração, ética e exposição à prática; no entanto, as competências em educação financeira, gestão empresarial e habilidades empreendedoras não são abordadas sistematicamente. Quem se forma pode compreender design e colaboração, mas frequentemente não está preparado para administrar ou contribuir para pequenos escritórios, fazer orçamentos, gerenciar contratos ou navegar por estruturas de trabalho autônomo. A pergunta continua sendo pertinente na educação arquitetônica sobre como podemos fornecer um remédio positivo para a distância que existe com a indústria nesse sentido. De modo semelhante, a saúde mental, o bem-estar e a resiliência na prática profissional continuam sendo motivo de preocupação. A precariedade socioecológica e os desafios no local de trabalho são mencionados, mas há pouca atenção sistemática à saúde mental, à resiliência ou às estratégias de enfrentamento em ambientes de escritório. Dadas as altas taxas de esgotamento e as culturas negativas relatadas em arquitetura, essas competências são essenciais para a sustentabilidade profissional de nossas e nossos egressos e oferecem um âmbito para expandir a pesquisa no futuro.

Um resultado e benefício estimulante desta edição evidencia-se pelo retorno de textos de múltiplos continentes e países, permitindo competência cultural e consciência da prática global. Os artigos consideram a pedagogia decolonial em contextos específicos, mas ainda devemos abordar a falta de uma preparação sistemática para a prática intercultural ou global na educação arquitetônica. Uma expansão da pesquisa poderia concentrar-se em como os formandos são preparados para navegar em ambientes profissionais através de diferentes marcos regulatórios, culturais e econômicos. De maneira semelhante, permanece por explorar a integração com disciplinas fora do design (planejamento urbano, ciências sociais, políticas públicas, engenharia, etc.), o que impõe maior pressão às lacunas existentes que foram dissecadas. Mais trabalho é necessário de ambos os lados para realizar isso, com atenção explícita à ética profissional em dilemas complexos do mundo real. Embora abordagens decoloniais e baseadas no cuidado estejam incluídas, deve-se prestar atenção também à tomada de decisões éticas em cenários comerciais, legais ou politicamente complexos. As e os formandos podem ser socialmente conscientes, mas não estão preparados para conflitos entre demandas dos clientes, restrições regulatórias e responsabilidades ambientais ou sociais.

A superação estrutural da brecha entre academia e profissão permanece pouco desenvolvida; a integração sistemática nos currículos além de módulos isolados seria uma área que se beneficiaria de maior debate na educação arquitetônica e na arquitetura em geral. Também continuamos observando uma lacuna no desenho de estruturas escaláveis, sustentáveis e institucionalmente integradas que exponham as e os estudantes a escritórios reais, mentorias e redes profissionais.

Com isso em mente, as editoras desta edição concluem com uma simples frase:
"O que acontecerá no futuro?"